Determinado período da minha vida convivi intimamente com evangélicos. Hoje, transcorrido algum tempo daquela época, consigo analisar e entender certas posturas que me incomodavam em algumas destas pessoas. Não todas, algumas.
Cabe aqui separar aqueles que exerciam suas crenças com equilíbrio e sensatez daqueles que mergulhavam na doutrina de forma idêntica aos grupos políticos-religiosos mais radicais, fanáticos e extremistas.
Estes, estavam sempre em alerta, apontando falhas comportamentais, criticando estilos de roupas, formas de falar, e chegavam acensuar publicamente aqueles que não agiam, falavam ou trajavam de acordo com a visão considerada correta por eles.
Os seus princípios sempre se mostravam severos, rígios, e adaptados às mais duras normas de conduta pessoal.
Essas pessoas faziam verdadeiras peregrinações religiosas. Andavam de donominação em denominação. Num dia estavam no culto dos 318 pastores da Universal, noutro no jejum das causas impossíveis da Assembléia de Deus, e em outro ainda na Campanha da prosperidade da Renascer.
Passavam dias, semanas, meses, num ritual de peregrinação. Buscavam a pureza, olivramento do pecado, das tentações da carne. Mas também buscavam riqueza material e tudo aquilo que era oferecido nos cardápios espirituais elaborados por pastores, bispos, apóstolos, missionários ou qualquer outro que se auto-intitulasse com um adjetivo eclesiástico. intermeiários entre a bençãodivina e os simples e imperfeitos mortais que lotam os templos.
Mas será que esssas pessoas buscavam e fato o que lhes era oferecido? Será que queriam saúde? Dinheiro? Um casamento renovado? Um novo emprego? Pode até ser que quisessem uma destas coisas ou todas estas coisas. Contudo, isso elas queriam na couraça, na superfície, no estereótipo com o qual se travestiam para serem aceitas.
O grande interesse, o interesse real e oculto era outro: Els queriam Manipular Deus!
Queriam impor sua vontade a Deus.
No final, para eles, Deus era um serviçal, alguém que tinha por obrigação atender suas exigências a qualquer custo. De qualquer maneira.
O raciocínio era: " Eu quero e Deus vai me dar de qualquer jeito"
E quando nãoeram atendidos pelo Deus serviçal esperneavam e se revoltavam.
AS causas da falta de concretização de suas aspirações, vontades e desejos eram sempre as mesmas, ou seja, a igreja não servia ,o pastor não tinha unção, as pessoas que lá frequentavam eraqm desviadas do caminho correto. Eles não podiam andar com aquelas pessoas ou serem lideradas por um pastor incompetente. Lá não era mais lugar para eles. E mudavam de igreja em busca de sua pedra filosofal, daquela coisa milagrosa que transmutaria suas vidas plúmbeas em uma vida de ouro.
Via de egra esses indivíduos possuíam intelecto superior, estudavam, pesquisavam e se muniam de conhecimento, colecionando uma infinidade de argumentos com o objetivo de demolir, rechaçar qualquer questionamento sobre suas posições e aspirações.
Não deixavam nem uma pequena brecha que permitisse algum questionamento ou discussão.
O conhecimento era usado para submeter o outro; não possuíam dó ou piedade. Não havia consciencia cristã no sentido nu da palavra. Fatos eram distorcidos para justificar atitudes. As versões sempre eram convenientes, nunca comode fato se passaram ou ocorreram. Tudo isso sustentado por um cavalar volume de informações adquiridas através de leitura e estudo.
O objetivo sempre era conquistarem uma posição de domínio. Este posicionamento afastava e impedia que suas máscaras fossem retiradas, revelando suas reais feições. A face real sempre estava oculta. até deles mesmos, incorporavam a máscara.
a somatória destes artifícios permitia que dominassem as situações,escondendo e/ou distorcendo a realidade, projetando a imagem que julgavam ser a conveniente para a ocasião.
O tempo passou, acabei me afastado dessa insanidade considerada normal, visto que vai ao encontro dos interesses do status quo vigente e da hipocrísia social implícita nas relações interpessoais.
Por contigências pessoais, acabei tomando contato com os 12 passos e 12 tradições de alcoolicos anonimos, narcóticos anônimose demais grupos que se utilizam deste processo.
Acabei descobrindo o universo dos anônimos: Alcoolicos anônimos, Narcóticos anônimos, Neuróticos anônimos, Jogadores anônimos, etc.. etc...Enfim, uma quantidade inesgotável de salas onde os membros destas irmandades se reunem. Todos os filhotes da insanidade alcoolica pipocaram no meu horizonte.
Eram tantos grupos anônimos que cheguei a questionar porque não fundir todos eles num único grupo que se chamaria Anônimos anônimos. A fusão de tudo, de todas as insanidades, compulsões, obsessões, taras, perversões num só grupo, num só caldeirão. Todos os desiquilíbrios compctados numa massa emocional delirante, dividindo suas vidas alquebradas em salas e reuniões de partilha, em encontros regionais, nacionais e internacionais.
Seríamos mais fortes que a Maçonaria!!! Afinal se Os Estados da América elegeu um alcoolatra para presidente, que dizer de nós todos juntos numa organização mundial pregando a volta à Sanidade? Qual bandeira política teria mais força?
Quão grande seria o número de poetas, artistas, atores, astros, empresários, executivos, policiais, políticos a integrar tal irmandade!!! Sem contar com os anônimos da vida, os Zé Ninguém da existencia humana dilacerada pela adicção. Os perdidos, desvalidos, esquecidos, rejeitados, exilados, enxotados.
Que multidão brilhante formaríamos!!!
Um espetacular mercado consumidor de auto-ajuda, pílulas e receitas químicas e espirituais.
Devido a essa convivência comecei a me aprofundar em temas ligados a psicologia de forma leiga. Comecei a tomar gosto pela análise do ser humano na sua forma mais desnuda possível; a nudez da mente. Pela patética e incomparável nudez da mente humana!!!!
Após consumir um considerável volume bibliográfico, juntamente com a minha convivência com pessoas que desenvolveram os mais diversos tipos de adicção, comecei ajuntar os pedaços de um gigantesco quebra-cabeças.
A princípio fiquei estarrecido como que vi. Passado o choque inicial olhei para esse universo com curiosidade, com o olhar de aprendiz. Assumi a posição de pupilo ávido pelo ensinamento do mestre.
As coisas, pessoas e situações ficaram mais fáceis de serem entendidas, digeridas e aceitas.
me deparei com o rico e espetacular universo da insanidade, com o universo da possibilidade infinita da mente humana.
Por paradoxal que seja, o evangélico fanático e manipulador foi substituído pelo adícto, manipulador, mentiroso patológico.
Diante da enorme quantidade de irmandades anônimas com que me deparei, não vi mal nenhum e criar mais duas:
1) C.A - Chatos Anônimos
2) M.A. - Manipuladores Anônimos
Mesmo que ambas ainda só existam na minha mente, na fértil planície da minha imaginação, irrigada pelo caudaloso rio das possibilidades.
É.... a física quântica explica.
Será? hahahahah!!!
E como seriam os membros destas 2 novas comunidades?
Primeiro vamos ao Chato aônimo.
O chato anônimo é o Sr. Programação. É aquela pessoa que acada 10 palavras proferidas, 11 são referentes aos passos e tradições.
Exemplificando:
Se você diz a esta pessoa que roubaram seu celular que você ainda nem acabou de pagar, ela retrucará dizendo que você está num processo de autopiedade. Afinal entregamos nossa vida e nossos destinos aos cuidados de um Poder superior e este Poder assim quis que fosse.
Ele frequenta reuniões de grupo com avidez. Necessita ser o melhor adícto, não basta saber que é adícto, tem que ser o adícto perfeito, o melhor de todos, o mais brilhante da turma.
O chato anônimo vê triângulos da auto obsessão em tudo e todos, a qualquer hora, em qualquer lugar.
O mundo para ele não é mais redondo, é triangular e auto-obsecado.
para ele sempre estamos em auto-engano, auto-piedade, auto-obsecados. Qualquer coisa que falemos ou assunto que venhamos a discutir, sempre estará sujeito a ser mantido dentro das 12 arestas que limitam a conversação do chato anônimo.
Ái de quem ousar extrapolar o perímetro estabelecido!!
O chato anônimo tem cura. Eu já fui um chato anônimo!
Quase sempre ele é uma pessoa que recém iniciou a caminhada pelas alamedas da recuperação. É um neófito, um iniciante.
Quase na totalidade dos casos isso passa e ele relaxa.
Podemos considerar a irmandade dos chatos anônimos como um trampolim, um estágio,uma passagem obrigaória a todos que entram em recuperação.
Ele acaba enxergando que os 12 passos são uma fórmula para o iniciado evitar encrencas, livrar-se de situações de risco e, lidar com a vida sem desespero e sem drogas ou alcool.
Ele percebe que os 12 passos podem ser aplicados na vida cotidiana sem ser necessário mencionar qual foi o passo que foi utilizado nesta ou naquela situação.
Fica finalmente claro que 12 passos é uma filosofia de vida e não a vida em si.
Ele adiquire novamente a capacidade de comunicação sem limita-la pelas 12 arestas Consegue finalmente ver que diálogos mais abrangentes que o livro azul de N.A.podem ser enriquecedores e interessantes.
Quando isso acontece chegou a hora de abandonar a irmandade dos Chatos Anônimos.
Mas o que dizer do outro grupo?
Ainda temos pela frente os Manipuladores Anônimos
O manipulador anônimo, de todos os tipos que frequentam as salas das irmandades anônimas, é o mais perigoso.
Posso garantir por experiência e convivência que nele mora o perigo.
Não se envolva como manipulador anônimo.
Em hipótese alguma se envolva com esse tipo.
Ele é um faixa preta 9º dan do judô emocional.
Qualquer sentimento nobre e elevado que você venha a nutrir por ele, amor, carinho, etc...será devolvido a você na forma de desprezo e pouco caso na mesma intensidade. Ele usará sua fragilidade por estar envolvido com ele para sugar tudo de você. Quanto mais carinho, afeto, amor você demonstrar sentir por ele, mais fortemente ele te jogará no chão. Ele usa seu sentimento para te usar. É um vampiro. Acabará com você.
Você pode achar que vai conseguir consertar o manipulador, mas está errado. Tendemos a acreditar que ele vai mudar, que ele vai se tornar alguém melhor, mais condescendente com o sentimento alheio, com as pessoas que se envolveram com ele, que ele pode vir a te amar, a te querer bem.
Esqueça!!!!! Afaste-se dele!!!!
O envolvimento emocional com o manipulador anônimo tende a turvar seu senso crítico e, nessa condição, você fica a mercê de suas artimanhas. Eu já me envolvi com uma. Não faz muito tempo. Nem preciso dizer qual foi o resultado.
Mas passemos a descrever a forma de agir dos manipuladores anônimos:
Eles atuam como agentes secretos, chegam de mansinho, estabelecem vínculos e com a delicadeza de um beija flor esticam suas teias aracnídeas.
Se o manipulador anônimo for mulher, certamente procurará jogar com a sensualidade fortemente. Vai procurar as meninas gays ou bissexuais da sala; Ela tem um faro de cachorro perdigueiro para isso; ao mesmo tempo se insinuará para os homens. Convidará um ou mais para viajar com ela. Até vai viajar, e com isso, estabelecerá um elo de ligação, mais profundo. Lembre-se, a intenção é usar as pessoas. Não pense que o manipulador está envolvido com você. Tudo isso é só jogo.
Conheço uma que fez isso comigo e mais uns três freqüentadores de salas de narcóticos anônimos. Levei-a viajar comigo.
O objetivo do manipulador anônimo é sempre o mesmo, isto é, estabelecer o maior campo de domínio que consiga.
O manipulador anônimo pode ser desmascarado. Basta prestarmos atenção em algumas características inerentes ao seu tipo de personalidade. Ocorre que muito pouca gente tem olhar crítico e, na maioria das ocasiões ele passa despercebido.
Também acabam passando despercebidos porque muitos dos que possuem o olhar crítico para detectá-lo, não tem paciência para ficar apontando quem ele é. Normalmente isso gera desgaste, embate intelectual, e haja saco para isso.
Acabam largando mão, afinal se aquela multidão de admiradores do manipulador anônimo resolveu adota-lo como mascote da turma, fica até deselegante destruir a ilusão da turma. Eles que se danem. Se querem ser enganados que sejam.
O manipulador anônimo sabe que nós ( que possuímos olhar crítico) sabemos quem ele é. Conosco ele se mantém a distância.
Segue abaixo algumas características de personalidade do manipulador anônimo:
1) Indiferença com os sentimentos alheios
2) Ausência de remorso
3) Abuso da boa fé
4) Frieza afetiva
5) Fingimento
6) Irritabilidade
7) Comportamento instável
8) Agressividade verbal
9) Distorção da interpretação dos fatos em seu benefício
10) Tendência a sempre culpar o outro
O manipulador anônimo também pode ser desmascarado pelos buracos óbvios nas suas estórias e narrativas. Sempre caem em contradição. Sempre mudam a interpretação dos fatos de forma que se formos atentos perceberemos.
Uma característica muito cruel do manipulador anônimo é que ele usa os 12 passos de forma perversa e pervertida. Ele é um profundo conhecedor da literatura de quase todos os grupos e irmandades de anônimos.
Usa a literatura como espada e como escudo contra os outros.
Os parágrafos e citações de maior peso estão sempre na ponta da língua, dispara suas setas no centro do alvo. É um atirador de elite, jamais erra o alvo. Ele consegue manipular uma sala inteira. Já vi verdadeiras obras primas teatrais em reuniões de partilha.
Certa vez uma garota, numa das reuniões feitas à luz de velas, aquela em que não conseguimos ver os olhos de quem está partilhando, deu um show. Até a sua madrinha ela conseguiu manipular numa ligação por celular. Atentem para o fato de que o celular era emprestado, ela não gastaria os créditos do dela. Nesta ocasião o celular utilizado foi o meu.
Ela se colocou numa situação de completa fragilidade apenas para saciar sua necessidade de provocar compaixão numa platéia ávida por um drama maior que próprio de cada expectador. A sensação de domínio é excitante, produz endorfinas em grande quantidade. Faz o manipulador anônimo se sentir bem e feliz.
Após o show ele atrai para si demonstrações de carinho e afeto que ele mesmo não consegue dar, mas como vampiro, suga de todos ao seu redor.
Devemos lembrar que um dos lemas das irmandades anônimas é: Honestidade, Boa vontade e Mente aberta. É pressuposto que numa reunião de partilha, quem faz uso da palavra pelos poucos minutos que dispõe para desabafar algo que se passa no seu íntimo, ou uma situação peculiar vivida, seja honesto. Pelo menos naqueles minutos.
O manipulador anônimo se valerá deste lema em seu benefício. Mentirá, distorcerá, inventará e abusará da boa fé do grupo. Usando de manipulação, ele sempre passa a imagem de que é uma pessoa empenhada na sua recuperação, conscienciosa de seus deveres e disposta a fazer tudo necessário para permanecer em sobriedade.
Tudo Mentira!!!!!!
Ele não é capaz de enxergar que recuperação é mais do que abster-se de consumir tal ou qual substância. Muitos manipuladores permanecem limpos. Permanecem organicamente limpos, mas o mental, o emocional e o espiritual continuam dopados. Continuam drogados mesmo sem ingerir substancias que alterem o humor. Mantem a mesma postura comportamental da adicção ativa. E não conseguem sair desta situação porque mentem para si e para o outro. Se deleitam com a mentira, com a tripudiação sobre o outro.
O auto-engano cresce e acaba se manifestando como se fosse uma crise esquizofrênica. Porque esquizofrênica? Porque ele começa a acreditar na mentira, na alucinação que cria e impinge a si mesmo e aos que convivem com ele. Impõe condições irreais de relacionamento e convivência. No fim acaba transformando a si mesmo no seu inferno particular. E se acostuma a esse inferno, e nele se acomoda. E de lá dificilment sairá.
É o fim do manipulador anônimo. Acaba sendo juiz, carrasco e testemunha de acusação de si mesmo.
A máscara cai e só resta a solidão.
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