sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Fernanda

Estranha sensação encontrar com alguém que só tinha visto em fotos e conversado através de uma janela do msn.
Mais estranho é dizer que a sensação foi estranha, mas nesse caso foi estranha mesmo. Já conheci pessoas pela internet e acho que é um meio válido para ampliarmos nosso círculo de relacionamento.  Não faço côro com gente que coloca mil restrições a essa maneira de conhecer alguém.
Não sei porque, mas dessa vez uma mistura de expectativa adolescente com curiosidade científica me invadiu. Para mim pareceu que eu estava num daqueles progamas conhecidos como Blind Date. O mais exótico foi ser o palco do programa foi uma sala de aula.
Começando do começo, a coisa aconteceu assim:
Eu gosto de fuçar perfis do orkut.
Um dia desses estava explorando perfis alheios e a foto de uma menina me chamou a atenção.
Não sei o que vi na foto dela, mas me chamou  a atenção. Um cabelo castanho aloirado, um sorriso de lado no rosto, um jeitinho que me fez pensar quem era ela, o que fazia da vida, se tinha namorado, se trabalhava, estudava, morava com quem, etc.. etc.. Tudo que eu poderia imaginar sobre aquela pessoa na foto se passou na minha mente. Criei uma ficção sobre ela.  A ficção da menina de cabelos castanhos. Me pareceu  um tipo praiano, que gosta de sol e mar e daí a imaginei na praia, saindo do mar e andando em direção ao local que ocupava na areia.
Qual praia? Sei lá.
Na minha mente ela se transformou numa rata de praia que passa os finais de semana em algum lugar que possa se bronzear durante o dia e à noite dar uma azaradinha básica. Até o tipo de biquini que ela deveria usar eu imaginei. Biquini bem pequeno, com dois lacinhos do lado que ela não devia parar de verificar e um sutiã que escoderia apenas o extritamente necessário. Um tipo superficial, interessada em levar a vida de forma descompromissada. Para ela se houvesse sol e praia, um bar e uma mini saia as coisas estariam bem.
Certas noites ela daria vazão à fêmea, e uma pessoa insinuante surgiria andando pela beira mar na caça de um pouco de prazer e diversão para espantar o tédio de uma madrugada de verão.  De bar em bar, olhando mas fazendo de conta que não olha, abusando do bronzeado, da roupa leve e provocante.
No dia seguinte, após ter se divertido numa cama escolhida aleatóriamente, lá está ela de volta à praia e ao seu ritual solar.
A noite não deixou marcas, apenas uma noite. Sexo é bom!!!! Mas só uma noite com a mesma pessoa, duas nem pensar. Amanhã, quem sabe outro lugar, outra viagem com hora certa para terminar. Caminhos que não se repetem, pessoas que não se repetem. 
Essa foi a menina que imaginei.
Até agora tudo que escrevi foi o que se passou na minha imaginação. Nada disso poderia ser real em outro lugar, só na minha imaginação. Poderia até ser real, mas eu não sabia nada sobre ela, tudo isso partiu da observação de uma foto.
Não sei quem ela era de fato, do que gostava, como era sua vida, se tinha dores, angustias, medos, amores, família, emprego,namorado, filhos e tudo aquilo que compõe a vida de uma pessoa comum.
A porta das probabilidades se abriu e fiquei olhando aquele perfil criado na internet, num site de relacionamento, como quem olha um quadro exposto num museu.
Tinha um endereço de msn messenger e eu adicionei à minha lista de contatos.
Claro que não esperava que ela desse atenção a mais um internauta maluco que adiciona alguém aos seus contatos sem sequer saber de onde ele é ou quem é, mas assim mesmo adicionei o endereço de messenger dela.
Esqueci de tudo isso. Passaram-se dias. Minhas atividades e o cotidiano da vida me fizeram colocar a menina de cabelos castanhos em alguma estante empoeirada da minha memória.
Estamos na boca do carnaval, as pessoas naquele frisson para definir qual o melhor lugar para passar 4 dias de fúria. Eu não vou a lugar algum, decidi ficar na cidade e aproveitar o vácuo deixado pelos  que viajam. Fiquei de sentinela da casa. Todos aqui viajaram e como adoro ficar sozinho  em casa..... Maravilha!!
O sol vai brilhar, a piscina do clube estará vazia, a academia não terá congestionamento de marombeiros paneleiros nos aparelhos.
Vou aproveitar a cidade e tudo que ela me oferece.
Sábado á tarde chego em casa e ligo o computador. Abro o msn e nenhum contato está on line. Pudera né.... Sabadão de carnaval, só eu mesmo pra ficar on line.  Mas já eram 5 e meia da tarde e eu estava cansado de tanto sol, de correr na pista de atletismo e de puxar ferro. Um tempinho em casa, ainda mais com a casa sem ninguém era tudo que eu precisava.
Foi nesse momento qe alguém entrou no meu messenger. Olhei o nome e me perguntei: Quem é? Não me lembro dessa pessoa. E resolvi puxar conversa.
Era ela!!!
A menina da foto que me vez viajar pelas possibilidades que só a imaginação proporcina.
Conversamos trivialidades e ela me disse que ia para um sítio. Eu atrevido dei meu número de celular para ela, mesmo sabendo que ela sequer anotaria. Mas faz parte da dança do reconhecimento mútuo e, eu não deixaria escapar a oportunidade de transformar aquele ensaio de ficção em algo palpável.  É parte da minha natureza de Don Juan ou de Casanova. Sei lá.. é parte de mim.
O carnaval passou e ela não ligou. A semana começou e e numa noite de terça-feira ela aparece no meu MSN.
Nos falamos..
Conversamos sobre várias coisas, e no final da nossa conversa, após passarmos pela fase do blábláblá, comentei com ela que eu estava buscando novos rumos profissionais. Ela respondeu  que se encontrava na mesma situação. Que estava interessada em enveredar pelo terreno da psicologia. Mais uma coincidência. eu estava com o mesmo interesse e ja tinha iniciado  um curso para me formar em psicanálise.
O interesse dela ficou evidente e, após explicar do que se tratava ela acabou se matriculando no mesmo curso que eu, na mesma sala que eu.
Hoje a Fernanda que eu vi por foto e que me fez viajar por uma estrada de ficção surgiu na minha frente.
Não posso negar que na hora que a vi me senti acanhado.
Cheguei atrasado na aula  e ela já estava lá, sentada.
Ela me olhou e sorriu. Eu retribuí o sorriso.  Só havia uma cadeira vaga e era ao lado dela.
A princípio  minha timidez de adolescente inseguro não me deixou olhar para ela nos olhos.
Usei de subterfúgios, reparei nos seus pés, nas unhas pintadas de branco, na simetria dos dedos dos pés.
Mulheres com pés feios perdem pontos comigo. Gostei dos pés dela.
Olhei para suas mãos e vi as unhas pintadas de vermelho e cuidadas, vi que suas mãos não eram gordinhas. Não suporto mulheres com mãos gordinhas! Eu sou chato? Ou sou um fetichista? Ou ambas as coisas?
Reparei no jeans que ela usava, na sandália que calçava.  Até aí não tinha olhado para ela mais do que por um relance. Vergonha? Insegurança? Bobeira? Sei lá...
Chegou o intervalo e fui para uma área externa onde é permitido fumar. Ela apareceu lá e sorriu.
Ela fuma!!!! Ufa!! Ainda bem que ela fuma!!!
Eu me permiti olha-la nos olhos e vi que seus olhos sorriam, não só seus lábios. Aquilo quebrou o gelo. Me pareceu que embora estivéssemos falando amenidades,  já nos conhecíamos há tempos, que estávamos nos reencontrando.
Acabou a aula. Saímos e ficamos esperando a sua irmã. Como a irmã dela parou o carro em  outro local eu me ofereci para levá-la com meu carro até onde estava a irmã.
A porta do carro do lado do  passageiro não abria e eu fiquei trancado dentro do carro. A minha porta não abria mais também. Só que eu estava dentro do carro. Eu preso dentro do carro e ela do lado de fora. Consegui abrir a minha porta mas a dela não. Fiz ela entrar pela porta de trás. Seguimos ao encontro do carro da irmã dela que estava exatamente 5 metros na frente do meu.
É Fernanda.. foi insólito esse nosso curto passeio de carro. Mas foi divertido.
Fui para casa pensando no conceito de sincronicidade:
Sincronicidade é uma sequencia de coincidências significativas.
Quantas coincidências significativas ocorreram até você e eu nos encontrarmos?
O que será que há por trás disso tudo?
Descobriremos.....
Benvinda à minha viagem psicodélica Fernanda!!!
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