Nos encontramos e você num momento de alma negra.
Não pense que suponho ter alma reluzente. No máximo cinzenta!
Foi muito difícil ver você chorando, se esvaindo em dor emocional e não poder fazer nada.
Lembro de você... Linda! Cabelo solto se debruçando sobre uma mesa de snooker. Um jeans rasgado no joelho propositalmente, um sorriso cativante, um olhar que me intrigava e que não era dirigido a minha pessoa diretamente.
Eu apenas mereci sua visão periférica naquele dia.
Eu nunca podia supor que por trás daquele olhar e sorriso havia uma pessoa em choque consigo mesma. Alguém que vinha fazendo da auto-piedade, de comportamentos destrutivos e repetitivos seu cotidiano.Foi bom ter você frágil, medrosa, insegura ao meu lado. Alimentou minha compulsão por ego, por sedução e também me fez sentir uma coisa diferente, sei lá... talvez realmente uma paixão.
Tudo isso escondeu o meu medo, minha insegurança e fragilidade.
Tivemos uma relação de cumplicidade emocional, de anestesia mútua.
Sua apatia versus minha inquietude, sua dor alinhada com minha dor, seu medo versus minha impulsividade.
Fomos complementares por uma semana, fomos a tampa e a panela. Só esquecemos de colocar algo mais dentro da panela. Esquecemos de colocar capacidade de entrega, coragem de saltar sem olhar a profundidade do abismo e a distancia que nos separava da outra margem do precipício.
Arregamos. Nós arregamos!!!!! Cada um da sua forma, mas arregamos!!!!!!!!!!
É... aquela sementinha que falamos na madrugada não germinou.
Para você era mais fácil permanecer na sua zona de conforto, no seu mundinho de dor já conhecido, se sujeitar aos mesmos padrões, aos mesmos comportamentos; se permitir ser usada por homens e mulheres.
Usar um ou outra por aí.
Sair por salas de irmandades anônimas na busca, na caça pela primeira carne fresca, ou nem tão fresca que se mostrar disponível, e depois se debulhar em lágrimas por ter abatido mais uma vítima, mais um sacrifício humano para o deus do seu buraco existencial...
O buraco.. o buraco... o buraco....
Lembro de você sentada no banco do carro falando do buraco, fazendo movimentos com as mãos como se estivesse enfiando um vibrador no seu buraco. Ato falho que você cometeu e eu percebi.
A busca pela paz de espírito que insiste em nos tripudiar, a paz de espírito que desacata nossas ordens para que nos invada e aplaque o vazio.
Para nós ( eu e você) é mais fácil ter sexo sem compromisso que sexo com entrega. É melhor ter relacionamento destrutivos que apostar num construtivo, num que nos obrigue a quebrar o paradígma e mudar nosso comportamento.
Somos mestres em atrair miseráveis espirituais. Adoramos deitar com eles, nos esfregarmos neles e gozarmos às custas deles. Depois nos apiedamos de nós e não deles. Somos egoistas até nisso, somos incapazes de nos apiedarmos de alguém que não seja nós mesmos.
Esconder-se atrás de um comprimido, permanecer em casa durante o dia e sair à noite, quando nada de concreto pode ser realizado, torna mais fácil justificar a falta de coragem de encarar o sol, de se mostrar para a vida e para o mundo podre que temos que engolir toda manhã... sem anestesia.
A cor da sua pele, a brancura da sua face, são símbolos, o ícones, máscaras do fantasma que vem toda madrugada te assombrar.
A cor do seu cabelo é a lembrança do sol que eu venero e você insiste em dele se esconder.
O sol que me faz sentir vivo, é o mesmo sol que te faz se sentir incapaz.
Estranha contradição, adícta contradição, maldita contradição, abençoada contradição, contradita contradição. Que merda.... que confusão.
O meu bronzeado é a antítese da sua depressão apenas na forma de se apresentar para as pessoas. você se mostra pálida, eu me mostro....
A noite da sua alma e a minha vontade de queimar de emoção são a mesma coisa.
Sentir emoção! É... sentir emoção.... somos adíctos.
É uma emoção que não sei de onde vem e para onde me leva. Às vezes por caminhos que embora ensolarados, são margeados por sombras que me assustam quando lembro dos seres que nelas habitam. Os mesmos seres que rondam sua cama nas suas insônias. Seres com os quais convivi por anos e anos e fiz de tudo para me livrar.
Os mesmos seres com os quais você insiste em conviver nas noites da sua alma.
Os mesmos seres que eu não consigo esquecer e não quero reencontrar.
Me deleitar...me lambuzar, me empanturrar de melanina e sedução.
Feniletilamina, Serotonina, Endorfina, Benzodiazepina..... nada disso preenche o vazio deixado pela cocaína. Nada disso preenche o buraco que você diz querer alucinadamente, sofregamente, hipnóticamente prencher.
Antíteses com resultados semelhantes.
Dores expressas de formas diferentes. Mas mesmo assim dores. Dores idênticas nas suas consequências.
Dor é dor! Pode ser dor de dente, ou depressão, um braço quebrado ou uma facada.
Toda dor vem de alguma disfunção, de algo que não é da nossa natureza, da invasão, da repressão, da desilusão, da ignorancia, dos conceitos distorcidos, do desconhecimento de nós mesmos, de contradições existenciais ou de um organismo confuso com os hormônios produzidos por ele mesmo, sem ter controle sobre as dosagens e consequências. Vem da afronta à nossa natureza.
Quebramos a cara.
Você concorda comigo que quebramos a cara? Ou não concorda?
E agora?
Seja lá qual for a sua resposta, você tem alguma idéia?
Eu não!!

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