sexta-feira, 7 de maio de 2010

UM REENCONTRO COM A COELHA

Esta semana encontrei a Coelha.
Foi uma surpresa; já considerava qualquer possibilidade de relação morta, putrefata e enterrada.
Desde a última vez que nos falamos até segunda-feira passada, tinha mantido com ela um frio contato por msn.
Era um sábado ao entardecer. Ela em Foz do Iguaçu e eu no meu quarto.
Lembro que era um dia frio aqui em São Paulo, um daqueles finais de tarde que não animam em nada. Assim como o dia estava frio, o contato também foi.
Falamos de amenidades e nada mais, fomos cordiais, mas sem intimidade. Não perguntei nada da vida dela.
Claro que morri de vontade de usar de maior indiscrição nas minhas perguntas, mas me contive. Não sei se o mesmo se passou com ela, mas como somos feitos da mesma substancia creio que ela também tinha perguntas a fazer embora não as tenha feito.
O tempo passou e voltamos a manter algum contato virtual pelo Orkut.                                                                                                               
Ela voltou a me adicionar como amigo e trocamos alguns recados por lá.
Na segunda-feira passada, recebi uma mensagem dela sobre sua mudança de residência e acabamos conversando mais tempo no msn.
A conversa se transformou num jantar.
Durante o jantar falamos sobre muitos assuntos ao mesmo tempo, entre eles ela confessou estar com vontade de ter um filho e casar.
Apos tanto tempo sem conversarmos os assuntos se embolavam, sem sequencia, sem começo, meio e fim.
Assim, do nada, depois de um simples jantar, me vi envolvido numa operação de mudança de casa, com todas as suas dificuldades e imprevistos.
Quando percebi estava coordenando limpeza de apartamento, dando ordens pra faxineira que eu arrumei, discutindo orçamento com eletricista, colando tacos no chão, comprando itens em loja de “faça você mesmo” e daí pra mais.
O mais interessante é que não era eu a pessoa a mudar de casa, nada disso tinha algo a ver com minha vida ou com minha pessoa.
O que a Coelha fez efetivamente nesse tempo todo?!
Com uma técnica invejável ela conseguiu parafusar a nova tampa da privada.
Como isso é complicadíssimo, levou mais ou menos uns 40 minutos para que a tampa ficasse bem fixada ao vazo sanitário.
Finalmente ela conseguiu dar cabo à heróica missão, e sorriu largamente, sentada sobre a tampa que tinha conseguido vencer na desafiadora batalha.
A tampa, feroz adversária subjugada, jazia calma, branca e submissa sob as coxas da Coelha.
Era uma visão interessante e instigante: “a Coelha sentada na privada”.
E eu?
Passei esse tempo todo sentado no chão fazendo o possível para que alguns tacos velhos e carcomidos pela umidade ficassem fixados nos seus lugares a custa de uma massa que lembrou meus tempos de jardim de infância.
Mais que isso, até colchão na capota do carro eu levei porque o carreto contratado não apareceu.
Era dia de jogo do Corinthians, então dava para supor que o indivíduo não iria dar as caras por pouco menos de 200 reais às 8 horas da noite.
Em conseqüência da falta da pessoa contratada para levar a mudança, fui brindado com uma agradável brincadeira que consistia em abrir sacos plásticos pretos cheios de roupas emboladas, para tentar conseguir formar alguns pares de mudas de roupa.
A Coelha tinha que trabalhar no dia seguinte e suas roupas estavam todas em sacos de lixo; uma pequena visão do seu senso de organização e da excelente dona de casa que é.
Apenas para constar, ela acabou não indo trabalhar no dia seguinte, me disse que perdeu a hora.
Acreditei com reservas na desculpa.
Voltando ao assunto, sempre tem alguma coisa nestas situações que escapa à nossa compreensão no momento, que devemos deixar assentar na mente para depois analisar calma e friamente.
Me surpreendi com a pergunta que ela soltou informalmente, despretenciosa ( !!??), sentada na privada, mas com uma tremenda curiosidade expressa no olhar.
Foi algo mais ou menos assim: - Você ainda tem algum sentimento ou já está tudo terminado?
Olhei para ela e respondi:- Se estivesse tudo terminado eu não estaria aqui, sentado no chão colando tacos.
Neste momento me lembrei da nossa conversa no jantar, quando me confidenciou que está com vontade de casar e ter filhos.
Imagino, pelo que vi no seu apartamento, como será o seu futuro lar, com marido, filhos e todas as deliciosas obrigações e responsabilidades que a vida conjugal acarreta.
A casa será igualzinha uma loja de artigos e roupas populares no final do dia.
Se você já entrou numa dessas lojas, deve ter reparado naquelas cestas cheias de roupas em oferta, todas jogadas como se fossem pedaços de pano sem forma, a espera de um infeliz que se aventure a encontrar algo que sirva e compre sem poder experimentar porque a loja não tem provador.
A única palavra que define isso é Caos!!
Também não posso me considerar uma pessoa mentalmente sã , enquanto eu estava sentado alí no chão, fui relembrando tudo que se passou na minha mente durante o jantar. Conforme ela falava em casamento e de sua vontade de ter filhos, eu me via ao lado dela, grávida esperando um filho nosso. E pensava comigo como seria a nossa casa, ou melhor, viajava na possibilidade de estarmos convivendo como um casal e, no que isso acarretaria.
Ela na cozinha, ela trocando fraldas de uma criança, ela acordando de madrugada para dar de mamar.
Tenho certeza que eu seria o cozinheiro. Os dotes culinários da Coelha são comer e comer.
Cozinhar? Quem sabe ovo cozido... lasanha de microondas e café solúvel.
Consegui vê-la com uma enorme barriga de sete meses ao meu lado.
Seus seios que já são avantajados, aumentados de tamanho por causa da gravidez e da lactação explodiram na minha tela mental como dois enormes cumes brancos que eu escalava em noites e madrugadas. 
Depois veio um filme na minha cabeça e, nele  nós dois andávamos pelos corredores de um supermercado fazendo compras para a casa, íamos na farmácia providenciar toda aquela bateria de coisas que uma criança recém nascida consome, fazíamos contas para acertar o orçamento do mês, discutíamos seriamente porque não daria para almoçar ou jantar fora e daí pra mais.
Todas os desatinos da vida de um casal me vieram à mente com uma nitidez assombrosa.
O estranho é que não vi em nenhum momento nós dois fazendo sexo. Apenas via nós dois fazendo compras e discutindo orçamento doméstico, cuidando de criança e cumprindo obrigações.
No meu delírio, só houve espaço para obrigações. Nenhum prazer se fez presente durante a alucinação.
O mais enlouquecedor de tudo que relatei até aqui é que, enquanto eu via as cenas descritas, eu apenas mastigava calmamente um pedaço de picanha.
A Coelha não percebeu que realizei uma viagem, tive um delírio, surto, sei lá o que, sentado na mesa do Sujinho, na rua da Consolação, bem na frente dela, enquanto ela mastigava outro pedaço de picanha bem na minha frente.
Apesar de tudo isso que relatei, no fundo de minha alma hippie, não achei a idéia totalmente insana.
Quem sabe seria a solução para nossas vidas.
Talvez uma coisa assim mudasse nossa postura diante da vida e nos desse outra prespectiva de realização pessoal.
Pode ser que até acabássemos sendo felizes, vivenciando um cotidiano que no momento é totalmente oposto ao que vivemos e conhecemos.
Um ato falho cometido pela Coelha me deixou intrigado e pensativo. 
No dia seguinte ao jantar entramos numa loja procurando um novo colchão para ela.
Vimos um colchão e uma cama de casal em oferta e pedimos informações ao vendedor.
Ao passar as medidas do colchão, ele informou que o colchão tinha 1,80m de comprimento.
Ela olha para mim e pergunta: - Mas você vai conseguir dormir num colchão menor que você?
Eu tenho 1,96m!!
Claro que eu não caberia no colchão, mas o colchão era para ela.
Para alguém que sempre me rejeitou como homem, foi um ato falho bem significativo.
Preferi não tocar no assunto.
Me arrependi! Devia ter tocado.
À noite, já no novo apartamento dela, com algumas sacolas com as mudas de roupa espalhadas pelo quarto, olho para ela. Seu semblante estava sombrio. A face estampava um ar cansado e ela resolveu tomar um banho.
Enquanto ela entra no banho, eu, juntamente com o eletricista, faço o levantamento do que é necessário para deixar toda a parte elétrica funcionando; nisso ela me chama no banheiro. Havia um grande problema com o chuveiro, ele estava com o jato de água torto, a água saia para o lado e ela não sabia a razão.
Olhei para o lorenzetti rebelado e, com um simples toque arrumei a posição da ducha.
Tudo ok!!? Água quentinha saindo na direção certa, deixei-a tomar seu banho e terminei de fazer o levantamento das necessidades para que tudo funcionasse.
Ela surgiu do banho, linda!! Os cabelos presos em dois pequenos bolinhos, uma blusa que mostrava o colo dos seios fartos e um sorriso no rosto.
Eu estava terminando com o eletricista e quando percebi, ela estava deitada de bruços no colchão me olhando fixamente de baixo para cima.
Senti que ela me olhou de um jeito diferente. Olhei seu corpo e senti um arrepio. Nesse momento tive outra alucinação. Nessa alucinação vi a Coelha nua, as costas brancas sem marcas de sol, a pernas dobradas com os pés para cima, o corpo exposto em sua totalidade. Logo voltei para a situação real e consegui me recompor sem demonstrar nada.
O eletricista falou algo sobre a quantidade de metros de fio elétrico que seria necessária.
Como eu ouvi o que ele falou da mesma forma que ouvimos algum som quando estamos debaixo da água e alguém fala na borda da piscina, achei melhor concordar com o sugerido e disse: - Bem...está tudo certo, vamos jantar.
Nos despedimos do eletricista e saímos.
Jantamos e nada de significativo foi conversado, ambos estávamos cansados, mas ela queria ir no grupo. Deixe-a lá e fui embora.
Chegando em casa mandei uma mensagem para o celular dela que não teve resposta e, no dia seguinte, nos falamos por msn novamente sendo que ela comentou a mensagem dizendo que tinha gostado da mensagem.
Ela ficou de me ligar, mas se não ligou deve ser porque conseguiu fazer o que faltava sozinha. Ou algo que não me agradaria saber ocorreu?
É... Eu acho que com a mudança um ciclo se encerrou.
Afinal eu ajudei na busca do apartamento novo, era de se supor que eu acabasse dando uma mão na mudança também.
Mas só isso, nada mais que isso.
Ainda bem que já aprendi a não me deixar abater por expectativas frustradas.
Foi só mais uma etapa na dura aprendizagem de como lidar com rejeição.
Apesar dos atos falhos, e de tudo mais, ficou claro que a Coelha não sairá do mato. Continuará atrás da moita. Ela continuará lá, se escondendo, aparecendo furtivamente. Quem sabe para alguém, qualquer hora dessas, ela se mostre por inteira, mas quanto a minha pessoa já percebi que sou para ela um estepe, um pneu de reserva do carro. Meu lugar é no porta-malas.
Ela colocou barreiras para ela mesma a meu respeito, criou restrições baseadas em suposições, e pior, se convenceu de que as suposições são realidades.
Nada que eu diga, faça ou tente vai mudar isso. Só ela pode mudar, mas não vejo nenhuma predisposição da parte dela.
Agora pouco ela me ligou. Disse que pensava que eu iria ligar para ela. Ainda me disse que uma mensagem enviada por mim era maliciosa.
Claro que era, mas tenho intuição e ela funciona muito bem.
Então querida Coelha, sei exatamente o que combinamos e suponho porque você não me ligou. Mas deixa pra lá.
Hoje é sexta-feira, o final de semana será frio, chuvoso, de acordo com a meteorologia. Então vou aproveitar e voltar a fazer as coisas apenas na companhia da minha pessoa.
Era tudo alucinação.?!
O tempo, senhor da razão, vai responder minha pergunta. E não demora muito.
Daí eu li um texto sobe os relacionamento na sociedade globalizada pós era industrial
Segue abaixo dois trechos que considerei interessante:
1-Um relacionamento amoroso é uma viagem que cada um faz sozinho . Se pudessemos escolher uma imagem elucidadora do amor de Lacan acredito que seria uma quadra de tênis, dividida por um paredão de vidro, cada um joga com o paredão , mas pensa que esta jogando com o parceiro. No amor, parece que está se jogando com o outro, mas na verdade cada um joga com seus significantes.
2-Amar é dar o que não se tem para quem não quer. Lacan propõem um enigma. Entendo que ele diz que, quando amamos alguém, supomos estar oferecendo ao outro a completude, o nirvana, o paraíso. Mas a felicidade para o outro não é exatamente aquilo que você está oferecendo. Quer dizer, numa relação a fantasia de cada um sobre o que seria a completude é muito pessoal.






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